quinta-feira, 6 de outubro de 2011
POR QUE (NÃO) MORRER?
Ontem, pela primeira vez, eu considerei com frieza a ideia de morrer. Contudo, tal fato não se deu a partir de uma perspectiva negativa. Ao contrário, ao fazer o balanço da minha vida, cheguei a um saldo positivo: sempre escolhi o meu caminho, cometi meus próprios erros, acertei meus próprios acertos... A situação é bem outra. Parece-me que, saindo da vida agora, eu ainda saio com uma certa dignidade. Ficando, corro o risco de cometer excessos.
Algum romântico poderá dizer que não sei o dia de amanhã e que o destino pode me reservar surpresas. Entretanto, vivi 40 anos e todos os dias de todos esses anos trouxeram a mim alguma surpresa (grande ou pequena), de modo que, também as surpresas já se tornaram repetitivas. Vivi bastante e bem. Poderia viver mais: ganhar mais, perder mais, chorar mais, rir mais, sonhar, esquecer, perder-me por aí, contudo, isso seria repetir e eu detesto repetições.
Outros, religiosos, podem vir a mim dizendo que a minha missão na terra ainda não está cumprida. Minhas filhas ainda não são adultas, ainda não terminei de pagar o apartamento, não escrevi um livro. A esses eu respondo que nunca vivi para criar filhos, comprar imóveis ou escrever livros. Vivi para aprender a distância confortável entre mim e os outros e aprendi que essa distância não existe.
Falam-me sobre o sentido da vida, o direito de viver o instinto de sobrevivência e eu só posso responder que tudo isso são falácias. Todos parecem ter razão e todos se contradizem o tempo todo. Nada mais me parece razoável. Não há razões para viver ou para morrer. A vida é uma aposta em que as chances de acertar não passam de 50%. Vivemos a vida toda por uma metade, vivemos pela metade. Quem sabe a morte não seja inteira...
Saindo da vida agora, talvez eu tenha direito a um esquecimento tranquilo. Não fiz grande bem, também não fiz grandes males. Se saio agora, saio, como quem sai de uma festa pouco depois do seu clímax e antes que todos bebam demais e comecem a cantar canções antigas...
Ednéia Angélica Gomes
Assinar:
Comentários (Atom)
